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Palavra do Mês

QUEM É O MEU PRÓXIMO?

Esta pergunta teria que estar continuamente em nossas mentes e não apenas ao longo deste ano(em que procuramos viver este “primeiro grau do amor” = “Ama o próximo como a ti mesmo” (Mt 22,39), mas ao longo da nossa existência inteira.

 

De fato, se toda a lei se resume no Amor ao próximo (cf. Rm 13, 8-10), se não podemos amar a Deus que não vemos sem amar o próximo que vemos (cf. 1 Jo 4,20-21), se ainda seremos julgados sobre o amor (cf.  Mt 25,31-46). Então a nossa vida teria que ser um andar como mendigos do Amor. Mendigos que precisam aprender a dar sua própria pobreza; mendigos que esmolam não algo para receber, mas a possibilidade de dar algo para os outros.

 

Realmente, como dizem os Padres da Igreja, os pobres são os nossos benfeitores, aqueles que nos permitem amar e, por isso,  enriquecer-nos do único tesouro que não pode murchar nem enferrujar, nem ser roubado.

 

Não há investimento neste mundo que renda tanto quanto a caridade: o cêntuplo nesta terra e a vida eterna (cf. Mt 19,29).

 

De fato, é dando que recebemos e, com a mesma medida que damos será colocada em nosso ser uma medida abundante, transbordante (cf. Lc 6, 38). Assim se expressa São Pedro Crisólogo: “Homem, sê para ti mesmo a medida da Misericórdia. Deste modo alcançarás Misericórdia como queres, quando queres, com a rapidez quequiseres: basta que ti compadeças dos outros com generosidade e presteza” (Sermão 43, 1° L 52, 320-322) e São Gregorio Nazianzo “Devemos alegrar-nos e não entristecer-nos quando prestamos algum benefício, por isso em todas as ocasiões, visitemos o Cristo, alimentemos o Cristo, acolhamos o Cristo... ofereçamos a Misericórdia e a compaixão nas pessoas dos pobres... de modo que eles nos recebam nas moradas eternas com o próprio Cristo, nosso Senhor” (Oratio 14, De pauperum Amor, 38,40: PG 35,907-910)

 

Quem é o meu próximo?

 

Não é apenas na Palavra de Deus que o homem pode encontrar o sentido mais profundo do mistério do Amor. De fato, na nossa natureza, é inscrita a “lei do natural” e contrariamente a toda a “ditadura do relativismo” que nos leva a pensar que não exista uma verdade absoluta, uma “verdade verdadeira”, nós cremos, como cristãos, que a Palavra está inscrita no coração de cada homem, pois “não está longe de nós para que possa dizer... mas está perto de nós, no nosso coração.”

 

Por isto é muito bonito ler uma página do poeta Tagore (da Índia) que é de uma sabedoria estupenda e que ilustra maravilhosamente a necessidade que temos de encontrar o pobre para nos enriquecermos, despojar-nos de algo de nós:

 

Eu estava mendigando, de porta em porta, no caminho da aldeia, quando tua carruagem de ouro apareceu ao longe, como sonho deslumbrante. E fiquei me perguntando, extasiado, quem seria esse Rei dos reis.

Minhas esperanças voaram alto e pensei que meus dias infelizes haviam chegado ao fim. Fiquei sentado, esperando esmolas que me seriam dadas sem serem pedidas, e um tesouro, espalhado por toda parte, na poeira.

A carruagem parou onde eu estava. Teu olhar pousou em mim e desceste sorrindo. Senti que a felicidade de minha vida, havia enfim chegado. Então, de repente, estendeste a mão direita e me perguntaste: “O que tens para me dar?”

Ah, mas que gesto régio foi este de abrir tua mão para pedir esmola a um mendigo? Eu estava confuso e não sabia o que fazer. Então, devagar tirei de minha sacola o menor grão de trigo e o entreguei a ti.

Contudo, qual não foi minha surpresa quando, no fim do dia, esvaziei minha sacola no chão e encontrei um grão de ouro entre as pobres migalhas que restavam. Chorei amargamente, lamentando não ter tido a coragem de entregar-me todo a ti.

 

Quem é o meu próximo?

 

Eis porque Jesus nos ensina a nos perguntar não para justificar a nossa indiferença (como para o fariseu do evangelho (cf. Lc 10, 31-32), mas para encontrar o sentido da nossa vida e experimentarmos a potência do Amor, pois “o Amor cobre uma multidão de pecados” (cf. 1 Pe 4,8). São Tiago nos ensina que “religião pura e sem mácula aos olhos de Deus, vosso Pai, está em visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações e conservar-se puros deste século” (Tg 1,27). Eis porque Jesus nos convida a “tornar-nos próximos com uma escolha concreta e uma atitude ativa “faze isto e viverás!” (cf. Lc 10, 28).

 

No livro do Gênesis se fala do sonho de Jacó em Betel. Ele viu uma escada que ligava o céu à terra e anjos que subiam e desciam por esta escada. Ele chamou o lugar Betel, pois dizia “Na verdade Jahweh está neste lugar e não sabia! Este lugar é extraordinário, não é nada menos que a casa de Deus e a porta dos Céus” (Gn 28, 19).

 

Os Padres viam esta escada como símbolo do mistério da encarnação de Jesus que une o céu à terra. Por este mesmo mistério podemos aplicar este símbolo a cada homem como primeiro caminho da Igreja, imagem viva do Senhor. De cada irmão posso realmente dizer: “O Senhor está aqui e não sabia! Você é Betel=casa de Deus e porta do Céu. Sim, amando o irmão, tornando-me próximo dele, eu posso experimentar a Presença viva do Senhor e um “pedacinho do céu” na terra!

O Bom Samaritano nos mostra com sua atitude concreta os “degraus” desta escada. Aproxima-se, vê, sente compaixão, carrega o outro, paga do seu bolso... Iremos aprofundar cada uma destas expressões do Amor, pois o amor é concreto, dá trabalho, “incomoda”, consiste em “fazer-se” próximo: “Faze isto e viverás!” (cf. Lc 10,28).

 

Vamos então pelo mundo como mendigos do amor, sedentos deste encontro; reconheçamos em cada irmão, em cada homem “uma ferida para ser curada, uma vergonha para ser abraçada, uma dignidade para ser resgatada, uma miséria que invoca misericórdia” (No Oceano da Misericórdia Infinita, pg. 17).

 

Lembro-me de uma jovem que nestes dias, aproximada pelos nossos missionários, sentiu-se restaurada pela Misericórdia do Senhor. Antes se sentia pior que o lixo que toda noite tirava da sua casa. Atualmente, todos percebem sua transformação e os familiares não acreditam que possa ter mudado tanto, deixando toda vida de pecado e as trevas que a envolviam. “Resplandece” de beleza e de alegria e, por sua vez, corre ao encontro dos outros para levar a luz de Cristo nas trevas deste mundo. Corramos nós também ao encontro de cada homem: “Faze isto e viverás!”.

 

Pe. João Henrique

 





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